Tem que Ser

Mandando uma mensagem à mãe do meu filho, para pensamos sobre as supostas «teimosias» do nosso pequeno, me deparo comigo tentando me livrar da expressão «tem que»: tem que vestir a roupa, tem que comer, tem que sair agora…

No livro «Comunicação Não-Violenta», Marshall Rosenberg pensa a expressão «tem que» ou «ter de» como parte do que ele chama de comunicação alienante da vida.

«Outro tipo de comunicação alienante da vida é a negação de responsabilidade. A comunicação alienante da vida turva nossa consciência de que cada um de nós é responsável por seus próprios pensamentos, sentimentos e atos.»

Primeiro, esta expressão instala uma instância que julga e que ordena, que impõe um certo e um errado independente da situação. Um ponto importante na Comunicação Não-Violenta é evitar «julgamentos moralizadores», ou seja, tentar observar sem julgamento de certo e errado. O «julgamento de valor» depende de um determinado contexto e de uma determinada situação, situação que não é estática e que só acontece naquele momento e naquelas condições.

Segundo, esta expressão desresponsabiliza quem toma a ação, como se houvesse algo pré-definido para acontecer, como se as vontades em jogo naquele momento devessem ser excluídas para que esse algo pré-determinado aconteça.

Todavia, mantêm-se uma certa ordem, uma diretriz, um guia ou alguns parâmetros pessoais de conduta. É preciso ter um direcionamento, só que esse direcionamento é uma escolha responsável, uma escolha de conduta feita de maneira consciente (na medida do que é possível). A expressão «tem que» desresponsabiliza frente à escolha, a escolha não é feita, não há a escolha com o «tem que».

Durante a mensagem, consegui articular o que queria usando a expressão «é assim que escolhemos e é assim que vamos fazer». Não há a obrigação do «tem que ser», há uma escolha autêntica: «escolhemos assim e assim vamos fazer». O Marshall sugere utilizarmos a expressão «eu opto por fazer isso porque desejo algo com esta ação».

Essa escolha pode ser um acordo entre os pais e as crianças ou uma escolha isolada dos pais.

Sim, ao assumirem a função de cuidadores, os pais precisam fazer escolhas que, em alguns momentos, podem contrariar as vontades das crianças ou mesmo fazer escolhas que parecem autoritárias.

Aqui reside a diferença: os pais escolhem cuidar dos filhos e escolhem tomar as atitudes. Não há o «tem que ser» das expressões «os pais têm que ser autoritários e impor limites» ou «os pais têm que ouvir os filhos». Substitui-se o «tem que» pela escolha que os pais fazem de cuidar dos pequenos, com total responsabilidade pelos atos e escolhas, com a liberdade (na medida que lhes é possível) e com a clareza que têm para tomar as suas atitudes.

Assim, a decisão que pareceria autoritária, vinda de um lugar não identificado e externo a quem decide, transforma-se numa decisão própria de quem decide, uma decisão por fazer algo porque se deseja alguma coisa. «Por nossa condição de sujeito somos sempre responsáveis», diz Lacan. E Jorge Forbes completa: «’Sempre’, diz ele, não de vez em quando ou dependendo da intenção, do conhecimento ou de qualquer outra variável. Se o sujeito é sempre responsável, não haverá sujeito sem responsabilidade.»

Seria possível não ser autoritário?

Vêm dois apontamentos, duas diretrizes:

Se a decisão pode mudar ou ser flexibilizada para atender às vontades das crianças, o que impede de fazer um novo acordo com os pequenos? Porque não ouvir e acolher a voz dos pequenos?

Se a voz dos pequenos não pode ser acolhida por alguma razão que os pais sabem (como a segurança e integridade dos pequenos), que os pais tomem a decisão. Todavia, é preciso verificar se é a voz do «tem que ser» ou se é a voz dos pais quem está tomando a decisão!

Se, por escolha, a decisão pode ser flexibilizada, tudo bem: escutemos os pequenos.

Se, por escolha, a decisão não pode ser flexibilizada, tudo bem também: aplica-se a ação mesmo a contragosto dos pequenos – com acolhimento aos sentimentos de contragosto e frustração dos pequenos.

O que não pode é a falta de escolha, a desresponsabilização pelas atitudes. O que não pode é o «tem que ser». Finalizando (e brincando), a responsabilidade «tem que ser» de quem escolhe.

Como nos diz Sartre, o que não é possível é não escolher: «a escolha é possível, em certo sentido, porém o que não é possível é não escolher. Eu posso sempre escolher, mas devo estar ciente de que, se não escolher, assim mesmo estarei escolhendo.»

06/Abr/2018
#Paternidade, Criação de Filhos, Gestação e Parto#Não-Violência