Moldura

Todo dia essas linhas escuras se estendem de um lado a outro do que vejo.

Todo dia essas linhas atravessam o que posso enxergar e contemplar.

Todo dia elas se colocam de cima para baixo, cada vez mais grossas obstruindo mais e mais.

A cada instante elas fazem barreira à luz, elas arrancam o brilho que entra, elas esbarram o que vem, elas cortam o que vejo.


Que essas linhas sumam!

É o que farei sem deixar para depois.

Quero que o cristalino e o transparente me mostrem o que está lá, para além daqui, o que pulsa caoticamente lá fora. Que o brilho intenso, o movimento, as cores, o contraste invadam aqui dentro, que tomem conta e que encham cada canto, cada lado, cada recanto.


Não basta!

Há o cheiro, o aroma, o ar, o vento, o som.

Que eu quebre o vidro, o estilhasse em incontáveis cacos e que eles explodam para o lá de tanta força.

Mesmo assim, ainda estou isolado pela moldura, os limites por onde entra tudo: o cheiro, o fedor o vento, o pé, o podre, o frio, a brisa, o quente, o úmido, o barulho, o escuro, o silêncio, a luz, a desordem, o que ordeno, o que me perco e me percebo. Este buraco: o vazio do furo nesta muralha árida e rude que me enclausura diariamente, horamente, instantemente, constantemente.


Que eu pule!

Que eu atravesse o furo!

E, assim, faço-me livre.

Atravesso a moldura e me jógo, me jôgo, me pêrco, me pôrco, me cúbro, me sínto, me rólo, me póro, me ógo, me óvio, me ónho, me zógo, me gózo em tudo o que é.


Sinto-me descer…

O ar acaricia o mais profundo de mim.

Sinto-me des-ser…

E me desfaço.

Já faz tempo que não sonho mais com aquela subida forte e dura e alta e interminável e cada vez mais ingrime que me fazia despencar lá do alto ao perder o contato com o chão.

Não me é mais possível eliminar a moldura. Preciso do vazio que vem dela, que está nela entre um canto e outro.


Maldita és tu que me permite observar e que me separa de tudo.

Maldita és tu que atravessa de lado a lado.

Maldita és tu que me isola e que me liga e que me lança e que me enoda e que me funda e que me contra e que me centra e me descentra.

Maldita és tu que, sem ti, a queda seria inevitável.


Imagem: Magda Rebello

Texto: Gilson Beck

Rodada 61 – texto no blogue Caneta, Lente e Pincel

25/Jul/2015
#Pseudo-Literatura