Sobre limites e palmadas

Carta a um amigo


Querido,

Percebo e compartilho da tua preocupação com o facto de que é preciso dar limites às crianças. Também compartilho da tua preocupação com a ação dos pais.

Não consegui ser conciso nesta carta pois os limites na educação dos filhos é uma questão importante para mim. Creio que os limites devem ser colocados da maneira mais eficiente possível, pois disso depende a habilidade de convívio social e, principalmente, a manutenção da vida da criança.

O que chamamos de limites é algo fundamental, algo que é da ordem da transmissão da cultura. Vejo a cultura como um conjunto de ferramentas que nos ajudam a viver a vida, um conjunto de regras, de mecanismos e de informações facilitadoras da nossa vida e fundamentais para a manutenção da nossa vida.


Os tipos de limites.

Consigo observar 2 tipos de limites. O limite real é aquele ligado aos factos reais, da natureza, do mundo, os quais não conseguimos mudar. Um grande exemplo é a gravidade. Uma criança não deveria pular de cima de um armário, pois cairá no chão e irá se machucar. Para a manutenção da própria vida, esse limite deve ser respeitado.

Do limite real, surge o limite simbólico. Este é o limite inscrito no plano cultural: uma simbolização, uma conversão em palavras de algo da realidade. Criam-se palavras e regras que nos ajudam na vida e ajudam a criança a lidar com o mundo. Para que uma criança saiba que pode cair de cima do armário, é preciso que ela compreenda o que é cair, é preciso que ela tenha a liberdade de experimentar e perceber com o próprio corpo o que é cair. Esses experimentos se fazem em segurança através das brincadeiras infantis. Jogar objetos ou deixar cair objetos é uma dessas experimentações. Cair torna-se palavra e, assim, pode ser manipulado, compreendido e usado pela criança.

O limite simbólico faz-se a partir disso: a criança começa a ter símbolos que a ajudam na compreensão do mundo, a perceber o funcionamento do próprio corpo e do mundo através desses pequenos combinados e acordos vindos das palavras. As palavras ajudam-na a viver no mundo: "Não ponha a mão no fogo, pois o fogo queima”. Para que criança entenda o que é "fogo queima" e evite tentar tocar o fogo, é preciso que ela saiba que queimar é uma experiência ruim e desprazerosa. Caso contrário, ela pode desconfiar que queimar é algo prazeroso e ficará com vontade de experimentar - o mal entendido é estrutural.

No limite simbólico também residem e se solidificam os combinados sociais, a moral, a forma de agir em sociedade. Não se grita em espaços públicos, não se bate em ninguém (a menos que seja para se defender e preservar a própria vida ou a vida da criança, mas apenas o necessário para isto). De uma certa forma, para tratarmos das regras sociais, o limite simbólico tem uma parte formada pela invenção e já não é um limite baseado nas leis da natureza (imutáveis, a princípio) e do corpo. O limite simbólico apoia-se nas regras de convivência que são combinadas entre as pessoas e essencialmente mutáveis ao longo do tempo.

Assim, o limite simbólico tem duas partes: 1) a primeira parte é para auxiliar na percepção da natureza e do mundo que nos rodeia (incluindo o próprio corpo) para que seja possível manejá-los e manter a própria vida; 2) a segunda parte é a invenção e os combinados de regras para se viver em sociedade, para que as vontades de todos possam ser minimamente respeitadas e atendidas, para que as pessoas se machuquem o mínimo possível.

Resumindo:

  1. O limite real é o limite da natureza, o limite do mundo, o limite do corpo no mundo, o que se apresenta de forma imutável e que pode pôr a vida em risco.
  2. O limite simbólico é um limite criado através das palavras. Tem duas partes:
    • a) Uma parte são as palavras e os conhecimentos que servem para nos ajudar a lidar com o mundo, que nos permitem a mediação entre nós e o mundo, que nos permitem manipular e usar o mundo para a nossa vida.
    • b) A outra parte firma e funda os pactos sociais, as formas como nos portamos, molda os comportamentos que temos em sociedade.


Função dos pais.

Para começarmos a andar em direção à palmada, proponho pensarmos a função dos pais (avós, tios, irmãos, professores e Estado na sequência da vida) na construção desses limites.

Visto que o limite simbólico serve para perceber o limite real e é a ferramenta que temos para lidar com o mundo real e o mundo social, a função dos pais neste contexto é transmitir o limite simbólico aos filhos. Os pais transmitem o limite simbólico no qual, também, estão inseridos. Transmitem o limite simbólico que construíram para si, que adotam para si e que estão familiarizados. Vale lembrar que o limite simbólico é feito por palavras, pela fala, por conceitos, por aprendizado.

A função dos pais é construir e transmitir esse limite simbólico, dar ferramentas à criança para que, aos poucos, ela possa começar a gerir-se sozinha no mundo, a controlar o próprio corpo, a lidar com os próprios sentimentos. Enfim, a função dos pais é dar ferramentas para que a criança possa fazer sozinha o que lhe é fundamental à preservação da vida (e um pouco mais para satisfazer o desejo). Para se atingir esse «gerir-se sozinha» (independência), é preciso que a criança aprenda palavras (significantes), aprenda conceitos, aprenda conteúdos e os vivencie. É preciso que algum saber se solidifique na corporeidade da criança para que ela possa manejar esse simbólico através do seu pensamento. Este saber se faz, também, pelo limite simbólico. Espero que até aqui eu esteja a fazer algum sentido para ti.


E como a palmada contribui?

A palmada tem efeito direto no corpo, na sensação do corpo. A primeira coisa que a criança recebe com a palmada é o contato. Como normalmente é um contato forte, ela sente o impacto, o desconforto e a dor do contato forte no corpo. Isso é semelhante a qualquer impacto, a qualquer batida na quina da mesa, a qualquer batida de cabeça na porta do armário suspenso.

Logo depois do contato, vem a sensação de alerta: o corpo da criança é invadido por uma sensação real de desconforto que a leva a um estado de alerta. Normalmente a cena da palmada continua com os gritos de quem deu a palmada e, possivelmente, com uma separação - "vai para o teu quarto pensar!" ou "já para o castigo!".

Como se pode perceber, a cena da palmada é uma cena de eventos, de fatos que acontecem em sequência. Uma cena no âmbito do real: uma série de eventos. Vimos que a função dos pais é construir o limite simbólico, ensinar palavras e nutrir a criança com ferramentas para que ela possa gerir-se sozinha no mundo.

As minhas questões são: em qual momento da cena da palmada (real) aconteceu a construção do limite simbólico? Em qual momento a palmada contribuiu para criar palavras, conceitos e conhecimento na criança? Em qual momento houve a conversão do real que invade o corpo da criança em algo que ela possa manejar nas próximas situações da vida?

Apesar de conseguir a completa atenção da criança naquele momentos - sim, a palmada invade o corpo e a criança pára de fazer tudo o que estava fazendo -, não consigo captar o momento em que a palmada faz a construção do limite simbólico. A palmada veio na tentativa de ressaltar e marcar que a criança fez algo errado, algo que não deve ser feito. Para que a criança perceba que fez algo de errado, isso precisa ser convertido em palavras, em conceitos (simbólico). De onde observo, na palmada não acontece o processo pelo qual o erro da criança passa a ser algum conceito que ela pode relembrar no futuro, um conceito que a ajude a agir diferente na próxima vez.

Qual seria a reação da criança frente ao susto e à dor da palmada? Qual seria a nossa reação, como adultos, ao receber uma palmada? Qual era a nossa reação como criança ao receber uma palmada?

Será que sozinha ela consegue criar palavras e perceber o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que no castigo ou no quarto sozinha ela conseguirá perceber sozinha o que antes não conseguiu perceber sozinha? Será que sozinha a criança conseguirá construir o conceito e tirar as conclusões da cena da palmada para construir o seu limite simbólico?


Será que sozinha…

E aqui eu vejo o ponto mais importante: a palmada provoca uma ruptura na ligação afetiva e no companheirismo entre os pais e as crianças. A palmada insere uma dimensão de dor e estado de alerta, estado provocado intencionalmente pela pessoa que é o suporte afetivo, emocional e de cuidado da criança. De onde vinha amor, repentinamente explode uma ação que provoca dor e desconforto. De onde vinha ligação (a ligação mais forte da criança), vem uma ação de separação. Da pessoa que antes dava proteção (a relação de proteção mais forte da criança), vem uma ação intencional que provoca dor e alerta.

O quanto a palmada contribui para uma relação de confiança da criança com os pais? O quanto a palmada contribui para a sensação de segurança, de estabilidade emocional, de garantia de suporte e auxílio à criança que ainda não tem as ferramentas para se manter viva sozinha? Será que a palmada não interfere na ligação e no laço afetivo entre os pais e os filhos?


O que mantém os laços entre as pessoas?

Na sua carta ao Einstein, em resposta a um pedido do próprio Einstein, Freud aponta que, para que as pessoas permaneçam juntas, precisam de duas instâncias agindo em conjunto.

A primeira é a instância da lei, do social, das relações sociais e das funções: pai e filhos, mãe e filhos, avós e crianças, pais e avós, professor e aluno, marido e mulher, chefe e empregado. São todas funções. E as funções sociais acabam por retirar o pessoal de cada um, reduzir a subjetividade (elimina o sujeito) a favor da função: faz uma violência. Ao mesmo tempo, a instância da lei funciona como um limite simbólico (para os adultos), os combinados sociais que limitam as ações das pessoas, que organizam as estruturas de comportamento e de relação, que funcionam como um guia indicando, principalmente, o que não se deve fazer: protege da violência.

A segunda instância é o laço afetivo, os laços de afeto e amor, as relações de cuidado e carinho, os sentimentos. Sabemos que os sentimentos ligam as pessoas. Também vale, aqui, as relações de identificação cultural: compartilhar os mesmos gostos, ter afinidades e atividades em comum, gostar do mesmo time de futebol ou da mesma banda, tocar o mesmo instrumento, dançar o mesmo estilo de dança, gostar da mesma comida.

Essas duas instâncias, como Freud sugere, devem acontecer ao mesmo tempo. As relações se sustentam de maneira mais estável e duradoura se as duas instâncias estiverem a agir ao mesmo tempo. E elas fazem suplência e apoio uma à outra. Cada uma delas sozinha não é estável o suficiente para manter as relações. Elas são instâncias que estão sujeitas a modificações e a se desfazerem: o afeto sustenta o laço quando a lei não regulamenta suficientemente; a lei faz barreira e limite (simbólico) quando o afeto falta.

Sendo assim, as relações entre pais e filhos precisam dessas duas instâncias: afeto e funções. E elas devem ser dos dois lados: os pais nutrem afeto, amor, carinho e cuidado pelos filhos ao mesmo tempo que assumem a sua função de cuidadores responsáveis pela manutenção da vida e formação desse indivíduo pequeno; a criança nutre afeto, amor, carinho e cuidado pelos pais e, ao mesmo tempo, reconhece os pais como aquelas pessoas que garantem sua sobrevivência, sua integridade física e mental, seus cuidados básicos e atenção.


Quais podem ser os efeitos da palmada nas duas instâncias que mantém os laços entre as pessoas?

A pensar nessas duas instâncias colocadas por Freud, podemos observar os possíveis efeitos da palmada, com base no que apontamos anteriormente.

No campo da primeira instância (os laços de lei e função social), instância responsável pela manutenção da integridade física e mental da criança, a palmada contradiz esta instância por provocar dor, desprazer, sofrimento e desconforto. Assim, os pais, que têm a função de garantir o bem-estar da criança, provocam mal-estar, dor e sofrimento na criança. Provocam deliberadamente, conscientemente e intencionalmente esse mal-estar. A criança esperava ser cuidada pelos pais, mas o que ela recebe é uma ação que coloca em risco a sua segurança e integridade.

No campo da segunda instância, são esperadas ações de prazer, cuidado e afeto. Ao surgir a palmada, de onde era esperado carinho, acolhimento, compreensão, segurança, proteção e educação, vem uma ação agressiva que provoca danos físicos e emocionais. De onde era esperado um suporte emocional, uma ação tranquila e tranquilizadora, um suporte acolhedor e de educação que permite criar ferramentas simbólicas para lidar com as emoções, surge uma ação violenta, de separação, de inquietação, de alerta. Se assim for, a palmada não contribui com essa segunda instância e a confiança é quebrada.

De onde observo, o resultado da palmada vai na contramão do que é suposto ser a função dos pais, pois provoca o desenlace dessas duas instâncias que mantêm as pessoas próximas e ligadas.


Mas quando se pode bater em alguém?

A princípio, bater em alguém deliberadamente é agressão. Bater em alguém só é permitido (pela lei) quando for para defender a própria vida, para manter a própria vida e a própria integridade ou para manter a vida e a integridade do filho (legítima defesa). A legítima defesa só pode legitimar o uso da agressão como defesa quando a pessoa é atacada anteriormente, a agressividade só pode ser usada como defesa a uma agressão recebida ou claramente eminente.

Será que a criança ameaça a integridade dos pais a ponto deles precisarem bater nela para se proteger e proteger a própria vida? Será que os pais se sentem ameaçados pelos filhos?

Esta é uma hipótese a verificar. Se assim for, é preciso criar ferramentas simbólicas (culturais) que permitam aos pais não se sentirem ameaçados pelos filhos e, assim, não usarem a agressão como recurso. É preciso criar recursos pessoais que permitam aos pais lidarem com os próprios sentimentos e com os filhos sem se sentirem desamparados e ameaçados. Também é preciso criar recursos sociais que deixem os pais mais seguros, mais amparados e menos ameaçados.


Mas o que fazer para criar os limites?

É importantes não confundir firmeza afetuosa com agressão. A palmada é uma agressão, como já vimos até aqui.

A firmeza é uma espécie de presença consistente e que pode ser extremamente afetuosa, acolhedora, cuidadosa e amorosa. Eu chamaria de presença afetuosa. Ela utiliza palavras e ações que acolhem os sentimentos das criança e, também, constroem as ferramentas para o limite simbólico.

Muitas vezes, os limites (simbólicos) não são aceites pela criança. Assim, ela vai reagir com ansiedade, raiva e ódio (em legítima defesa?) e todos os outros sentimentos vindos da frustração. Sentimentos legítimos para uma criança, sentimentos que também são sentidos pelos adultos quando são colocados frente a um limite simbólico - adultos sem as ferramentas simbólicas para lidar com a própria frustração.

Há aquelas situações que tratam de um limite real e que os limites não podem ser flexibilizados para a proteção da vida da criança. Nos casos em que o limite não pode ser flexibilizado, os pais podem usar a firmeza afetuosa. Uma firmeza afetuosa é estar presente, colocar o limite de maneira muito clara e direta, acolher os sentimentos da criança (frustração, tristeza, raiva…). A firmeza afetuosa também pode sugerir outra coisa a ser feita para que a criança possa ter a satisfação e o prazer que buscava com a ação fora do limite. Podemos dizer que esta é uma construção de limites de maneira positiva, de maneira afirmativa. Se a criança queria pular do armário, podemos sugerir jogar um objeto para cima e ver o que acontece com o objeto quando chega ao chão: cair no chão dessa altura deve doer, não? Se a busca era o prazer de saltar, colocamos um colchão no chão e pulamos nele, ou vamos a uma cama elástica ou outra solução dentro dos limites reais e dos limites simbólicos suportados pelos pais.

É preciso e precioso preservar as instâncias de ligação, tanto a função de pais cuidadores como a ligação afetiva de cuidados e de amor (amor dos pais que se supõe incondicional).


Limites flexíveis e limites inflexíveis.

Outra questão que me coloco sobre limites é a possibilidade de flexibilizar e negociar os limites. Ou até a possibilidade de construí-los em conjunto com a criança, baseado nas necessidades e possibilidades reais e nos fatos perceptíveis e imperceptíveis para a criança. Mas isso demanda um pouco de coragem de investigar, refletir e sustentar as consequências e vantagens dos próprios atos.

Quais são os limites que efetivamente são baseados no real e que não podem ser flexibilizados? Pular de cima de um armário é um exemplo. Quais são os limites que podem ser flexibilizados? Quais são os limites que herdamos socialmente ou herdamos de nossos pais-avós que não são efetivamente limites baseados no real? Quais são os limites herdados que já não fazem mais sentido (por questões históricas, sociais ou culturais)? Quais são os limites que eu quero cultivar e que eu acho fundamentais? E, principalmente, quais são os limites que me auxiliam e me conduzem na direção daquilo que quero cultivar com os meus filhos?

Os limites são, também, uma questão de escolha. Para isso, precisamos bancar nossas escolhas e decisões e, em muitos casos, reconhecer os nossos limites.

Se o limite pode ser flexibilizado, flexibiliza-se.

Se o limite não pode ser flexibilizado, vamos mantê-lo de uma forma firme, gentil e afetuosa, acolhendo os sentimentos desagradáveis dos nossos filhos e ajudando-os a lidar com esses sentimentos desagradáveis. Acredito que o cultivo do cuidado e do afeto seja o mais importante na relação com os pequenos.

Também podemos pensar em como construir o limite de maneira positiva, não pela negação e proibição, mas pela sugestão e condução. Mas é uma questão para outro momento.


"Sempre por causa do hábito…" (Camus)

Não é fácil mudar velhos hábitos. A palmada está na nossa formação e é o limite simbólico que herdamos. Foi com a palmada que fomos educados a educar. Todavia, a palmada não é um limite real, portanto, podemos abandonar a prática da palmada e substituí-la por algo mais eficiente e mais afetuoso.

Não é fácil criar e sustentar formas novas e formas pessoais de agir, cultivar e viver. Mesmo não sendo fácil, considero importante tomarmos uma posição frente àquilo que faz sentido para cada um, uma posição que favoreça atingir esse particular de cada um, principalmente naquilo que se busca cultivar com os pequenos. E a minha escolha é pelo afeto, carinho e cuidado - o que, para mim, faz parte do amor.

Há pessoas que também estão neste cultivo, no cultivo de criar formas para lidar com as crianças sem usar a violência. Elas podem nos ajudar nesse percurso. Nós podemos nos ajudar nesse percurso. Não estamos sozinhos. Juntos, cultivar torna-se mais fácil e menos pesado.


Fica bem.

Com afeto e cultivo.

Graciosa, 12/Out/2019#Paternidade, Criação de Filhos, Gestação e Parto#Flerte com a Psicanálise#Não-Violência#Educação