Incorporado: em corpo forjado

Acabo de chegar do concerto do violoncelista Kayami Satomi. Há concertos que são bastante bons e que me deixam a pensar. Esses concertos, além do prazer que proporcionam com a música, libertam os pensamentos para que eu possa ver, ouvir e observar o que há de único naquele músico que toca, o que há de particular nele que não acontece em mais ninguém e em nenhum outro músico.

Conheci o Kayami numa edição do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Lá escrevi um duo (violoncelo e piano) para que tocasse com o seu amigo, o Renato. «As Folhas do Platanus» era o título, a única coisa que me restou.

O que aconteceu de nossas vidas?

O Renato foi estudar piano em Portugal, depois virou engenheiro. Eu tornei-me esta coisa Incompleta atravessada por música, psicanálise e cultura. O Kayami ganhou a bolsa do Festival de Campos do Jordão, passou alguns anos estudando na Alemanha e hoje é isso que aí está.


Uma prática

Durante o concerto, fui atacado pelo pensamento de que o fazer musical é uma prática e, como tal, só pode ser produzida num corpo e por um corpo. Uma prática é um «saber fazer» específico de um corpo, com as características peculiares desse corpo. Mesmo que possam ser transmitidas, elas não se reproduzem exatamente no corpo de quem aprende, nunca é uma cópia: sempre há transformações e adaptações.

Dessa maneira, a transmissão desse saber fazer não se dá através de um conjunto fechado de regras e movimentos que são meramente imitados, ensinados e reproduzidos. São um modo de usar o corpo, de arranjar soluções com um corpo – seja o corpo do performer, do professor ou do aluno – para atingir determinados objetivos, determinados produtos, determinados resultados.


Não é imitação

A transmissão não é uma mera cópia do professor. Em um programa Provocações, Antônio Abujamra diz que «a cópia é a mais difícil das artes»(1) no sentido de ser praticamente impossível de ser bem sucedida. E é completado por Jorge Forbes: «a cópia é muito ruim… não dá, fica ruim demais… eu acho que é um horror»(1).

Na transmissão desse saber fazer, é preciso que algo seja forjado num corpo, tendo em vista que forjar pode ser definido como «trabalhar ou fazer (alguma coisa) na forja»(2). Forja designa o forno utilizado para aquecer os metais que o ferreiro trabalhará pelo processo de forjamento: aquecer o metal na forja, martelar sobre uma bigorna, reaquecer, martelar novamente, repetir esse processo até que, ao fim, o ferreiro tempera o metal num líquido que arrefece e fixa a forma forjada.


Incorporar: em corpo estar

Pensando a transmissão através do ato artesanal de forjar um corpo atribuindo-lhe uma determinada capacidade e um determinado saber fazer, temos, como resultado, o corpo que toma posse do que faz, que possui o que faz, um fazer incorporado e próprio do corpo que o faz de forma natural e fluída.


A imitação que barra a transmissão

Esse saber fazer não é algo falso que deva ser simulado nem é algo externo que deve ser apreendido e prendido. Não é um ritual nem uma prática de regras. Não é algo que entra no corpo, que «baixa» com ou espírito ou que toma o corpo. Se assim for, torna-se um jogo de imitação, uma cópia que corre o risco de ficar «ruim demais… um horror»(1). Sobre esse jogo de imitação e cópia, alguns podem dizer que é algo do processo de aprendizagem, um período de absorção. A meu ver, isto é um obstáculo para a transmissão desse saber fazer.


Incorporado: forjado no próprio corpo

O saber fazer se transmite na forja e pelo forjamento que não se faz com um molde. A forja se faz no processo insistente e persistente de aquecer e martelar, seguido do arrefecimento que fixa a forma quando estiver ajustado ao que se deseja. A transmissão não é uma incorporação no sentido de colocar algo dentro do corpo, absorver algo que vem de fora e deve ser colocado para dentro. Penso que é algo incorporado: feito especialmente para o próprio corpo ao mesmo tempo que vem direto do próprio corpo, um saber fazer cujo molde é o próprio corpo e forjado diretamente no próprio corpo e para o próprio corpo.


Do incorporado, faz-se

Do incorporado, torna-se algo natural e fluído, parte da própria vida do corpo. O corpo torna-se dono dessa cultura, dono dessa prática e pode fazer uso da maneira que bem entender. É uma prática comum, habitual e orgânica.

Não se pretende que aconteça, não tem a intenção de se mostrar nem de se exibir. É algo do próprio corpo que vai para o externo, para o exterior, algo que emana, que sai do corpo e pelo corpo, exala, que sai, que flui…

Não há mais o pudor nem o rito. É despido, é corpóreo, é sexual, é sensual, é o íntimo colocado em jogo num simplesmente «é-se», faz-se a tocar os outros corpos.

Não há o erro nem o acerto, não há o padrão a ser atingido: o certo e o errado se desfazem.


A volta

Esta é a maneira que sou capaz de conceber e pensar o processo de construção de algo em música. É com esta ética que tento sustentar as aulas e as atividades de música que proponho: espaços para que se forje algo musical particular em cada um.

Quando reencontrei o Kayami em Uberlândia, uma das primeiras coisas que ele me disse foi que tinha a partitura do duo. Alguns dias atrás uma pessoa me contou a lembrança do Kayami sobre o dia que eu lhe entreguei a partitura do duo: ele disse que não conseguia tocá-la e que eu lhe mostrei todas as posições e as maneiras de executá-la no violoncelo. E completou dizendo que me vê como uma pessoa que lê muito, que estuda muito e que isso dá um suporte ao que faço.

Achei curiosa a lembrança dele, bastante agradável ao meu narcisismo. Provavelmente é a forma bonita que ele tem de contar a história. Felizmente eu não lembro desse dia pois, se eu lembrasse, ficaria achando que as minhas bobagens o instigaram – algo pretensioso tendo em vista o que ele se tornou na sua prática de violoncelista.

Mas qual seria a minha prática, afinal?

Talvez a lembrança dele aponte (para mim) algo que possa nomear esta prática: observar as coisas e arranjá-las de uma maneira que possam ser contadas. Nem eu sei quantas vezes ainda vou à forja, forjando-me na observação até que um dia, enfim, possa ter o arrefecimento.

Escrever estas bobagens são o processo de forjar-me…



Referências:

(1) Provocações – Programa de Antônio Abujamra entrevistando Jorge Forbes. https://youtu.be/VMa2qcgO3ac?t=10m37s

(2) “forja”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa em linha, 2008-2013,- consultado em 13-06-2018. https://www.priberam.pt/dlpo/forja

13/Jun/2018
#Música e Arte#Educação