Crianças que batem nos pais: ensinas-me a amar?

Levar um tapa do próprio filho pequeno sempre agrediu os pais e as mães.

Até que ponto as crianças são capazes de lidar com os próprios sentimentos e os enlaces do amor e do ódio?

Será que uma criança poderia demonstrar um pedido de amor e ajuda através da agressividade?


Amor e Ódio

Chico Buarque e Elis Regina cantam uma cena de ódio, raiva, rancor e vingança para mostrar que ainda há amor:

«Dei pra maldizer o nosso lar

Pra sujar teu nome, te humilhar

E me vingar a qualquer preço

Te adorando pelo avesso

Pra mostrar que ainda sou tua

Até provar que ainda sou tua»

E vamos ao velho Freud:

«o ódio motivado de maneira real é fortalecido pela regressão do amor ao estágio sádico preliminar, e portanto odiar assume um caráter erótico e a continuidade de uma relação amorosa é garantida».


Enlaces do Ódio e do Amor

Ódio e amor não são a mesma coisa. Tampouco a violência contra a mulher ou contra o homem é uma forma de amor. O que ressalto é que ódio e amor não são tão distantes assim.

Com Lacan temos a expressão «hainamourer», neologismo unindo a sua homófona «énamourer» (enamorar-se, apaixonar-se) com um começo em «haine» (ódio): o ódio vem antes, é mais fácil de expressar do que o amor que demanda algum empenho e cultivo.

O oposto do amor não é o ódio. O oposto do amor é a indiferença


Amor e ódio como expressão da fascinação

Ódio e amor são apenas duas maneira de exprimir uma fascinação, de exprimir uma ligação. Há de haver alguma coisa que regula essa «descarga» de fascinação, conduzindo-a ou ao ódio ou ao amor. Quando vemos adultos manifestando ódio desmedido, como em brigas de casais ou namorados, percebemos que algo ali vai mal e vai deslocado. É possível perceber que há um curto-circuito fazendo com que este adulto transforme em ódio a descarga que deveria se direcionar ao amor. Este ódio pode mostrar a fascinação forte que, por curto-circuito ou por falta de meios, não consegue atingir a via do amor.


Curto-circuito e imaturidade infantil

Há um curto-circuito, há um sistema que ainda é infantil, que ainda não amadureceu para conseguir lidar com as emoções. As crianças (e alguns adultos) ainda estão imaturas emocionalmente. Sendo assim, amar e odiar são ainda confundidos para estabelecer a relações.

Ao partir da premissa que amor e ódio são formas de ligação e fascinação, quando uma criança resolve agredir os seus pais (manifestação de ódio), ela manifesta uma ligação e uma fascinação. Mas como?

A criança nem sempre tem recursos suficientes para direcionar as emoções por uma via adequada, principalmente as emoções ainda desconhecidas. Assim, algumas emoções que poderiam ir pela via do amor acabam saindo pelo ódio. De outra forma, a criança sente alguma emoção desconhecida e a única forma que ela consegue manifestar é através do ódio ou da agressão.

É frequente ouvir crianças irritadas ou com sono dizerem que odeiam os pais. E logo que os pais respondem que as amam mesmo assim, a criança fica feliz e tudo se resolve.


Agressão como forma de ligação

Transformo ainda mais um pouco. Quando uma criança resolve bater em seus pais, ela está manifestando um sentimento seu, ela está direcionando este sentimento para o adulto que a cuida. Destinar um sentimento, seja qual for a via possível para manifestá-lo, é um ato de confiança.

A criança sabe que está se manifestando de uma forma destrutiva. Mas esta é a única via que ela consegue comunicar determinado sentimento, além de ser uma maneira de testar as suas emoções, testar como o outro vai reagir, aprender e, principalmente, receber algo de volta do outro.

Continuando o percurso: ao agredir os pais, a criança está confiando inteiramente no adulto, confiando que ele é capaz de lidar com aquele sentimento que ela só consegue manifestar pela agressão. Ela sabe que bater e agredir dói e pode machucar o adulto, mas ela também sabe que o adulto é o único que pode ajudá-la a encontrar uma forma melhor de direcionar essa emoção, essa descarga.

De outra forma, agredir pode ser um pedido da criança: «Por favor, me explica o que é esta emoção que eu só sei manifestar pela agressão. E me explica como lidar com isto!»

Há uma entrega total da criança no ato de agredir. Ela abre-se completamente deixando descoberto e sem defesa tudo aquilo que ela tem dentro de si.


A reação dos pais e a confiança das crianças

Agora a parte que mais me preocupa: como os pais reagem a esta agressão?

Os pais supostamente são adultos maduros, que sabem lidar com as próprias emoções e a quem as crianças depositam toda a confiança e endereçam pedidos de auxílio.

Mas, como Lacan diz com «hainamourer», o ódio vem antes do amor.

Percebo que alguns pais não lidam com as suas próprias emoções e não conseguem transpor este primeiro passo do ódio. Assim, a criança recebe como resposta uma outra agressão: um tapa, um grito, um puxão de orelhas, um puxão pelo braço…

Ao se abrir completamente num pedido de ajuda, ela recebe uma agressão, um revide, um ato raivoso que quebra a inteira confiança que ela depositou no adulto. É isso mesmo?

Esta agressão entra diretamente no que a criança tem de mais íntimo. E, além de quebrada a inteira confiança que a criança depositou nos pais, a agressão destes fecha o assunto sem a ajuda esperada pelo pedido da criança: «me explica como lidar com isso, por favor».

Ou pior ainda, fecha-se o pedido com a prática: «lida com isso através da agressão!»


Um pedido outro

Assim, chega-se a um outro pedido: acolhas a agressão que a criança endereça a ti.

Mas como acolher a agressão da criança contra mim?

Lembre-se: ódio não é o contrário do amor.

Se a criança te escolheu, ela não sente indiferença por ti.

Se a criança te escolheu, ela manifestou uma fascinação por ti.

Se a criança te endereçou uma agressão como pedido de ajuda, é sinal que ela confia muito em ti.

Se a criança te endereçou uma agressão, é sinal que ela ainda não sabe dizer «eu te amo».

Por favor, não revides à agressão. Poderias apenas mostrar a ela como é que se diz «eu te amo!»?

Uberlândia, Abril/2017
#Paternidade, Criação de Filhos, Gestação e Parto#Flerte com a Psicanálise#Não-Violência