Ao Entrar

«Que ninguém entre aqui se tiver a intenção de sair» diz o escrito pregado ao alto.

Ao entrar, deixe o absoluto à porta. E com ele deixe a intolerância. Não entre se não conseguir suportar a angústia da incerteza, do diferente e do que não tem normas. São poucos os capazes de lidar com ela e aqui dentro não cabe nenhum eleito.

Ao entrar, só verá o absurdo, só haverá o singular, o mais próprio que o próprio nome, só o resto, o delírio.

Ao entrar, dispa-se. Só será capaz de permanecer dentro aquele que, em busca de todas as suas dobras e elevações, consegue por-se nu a si mesmo.

Ao entrar, verá que o que faz mover é o desejo, razão própria e singular, o que não tem nome, o que não é justo, o que não há recusar A razão que faz sentido e que é sentida como dor e gozo pelo um-só.

Ao entrar, verá que é isso, que não é legal, que não é como os outros, que não se aprova. Mas que é isso, que é como é e não pode ser diferente.

Se ainda não entrou, não entre! A angústia aqui dentro ser-lhe-á insuportável.

Se já entrou, não olhe para trás. O que ficou à porta, e para além dela, já lhe é insuportável.

2011
#Pseudo-Literatura